Viagens Pela Minha Terra: “com a sua imponência, Topo de Miranda criou caprichos e impõe suas vontades”

12 de outubro de 2021

Topo de Miranda, na Ribeira da Torre - ilha de Santo Antão
A+ A-

Ribeira da Torre é um dos muitos vales verdejantes da montanhosa ilha de Santo Antão. O vale destaca-se pela quantidade de árvores de fruta-pão que ostenta de uma ponta à outra. Tem, igualmente, muita bananeira e cana-de-açúcar, e, também, muita água.

Mas, não há dúvidas de que a referência maior da Ribeira da Torre é a torre que lhe dá nome. E a torre da Ribeira da Torre chama-se Topo de Miranda, Top de M’Randa na forma de dizer das gentes da ilha.

Quem está na cidade da Ribeira Grande e pretende aventurar-se pela Ribeira da Torre, passa pelo bairro de Cerrado e entra no vale. Imediatamente, dá de caras com Top d’Randa, ali plantado mesmo no meio da ribeira.

O topo quis escolher exatamente a parte mais larga de todo o leito da ribeira para se estatelar, como que a dizer "daqui não saio, daqui ninguém me tira". E lá fez-se Rei e Senhor. À volta dele nasceram comunidades: Ribeirinha de Jorge, Lugar de Guene, Cabouco de Cosco, Cabouco de Peregrina, Longueira, Varzinha... sempre nas redondezas, nunca sobre ele, jamais deixaria!

As próprias cheias, tradicionalmente fortes quando vêm, tiveram de procurar caminhos alternativos, porque nunca conseguiriam sequer beliscá-lo. Por isso, quando caem as chuvas e vêm as enxurradas, ao se aproximarem de Top d’Randa, fazem curva para esquerda, e contornam a torre. Ultrapassagem pela direita... impossível! Jamais hão-de conseguir. O senhor da ribeira não permitiria essa infração.

Com a sua imponência, Topo de Miranda criou caprichos e impõe suas vontades. Por exemplo, não admite escaladas até ao seu cume. Só permite que se chegue até aos seus ombros. Ou seja, é possível subir com muita facilidade até a metade da elevação e contorná-la de ponta a ponta. Mas, dos "ombros" até chegar ao "cocuruto", a conversa é outra. Não permite! Aliás, apenas um grupo muito restrito de corajosos já fez isso em jeito de desafio pouco recomendável. Quem fez uma vez dificilmente repete a proeza, a não ser o saudoso Fiapa. Ele é que domava o cume. Mas, também - lá está - Fiapa tinha ar de alguém que não era deste Mundo. Deveria ter por lá escondido seus mistérios, que nem o Leandro (d'Os Flagelados do Vento Leste) lá pelas grutas do Planalto Norte.

Topo de Miranda é Rei da Ribeira da Torre. E como acontece, geralmente, com todos os senhores de poder absoluto, criaram-se lendas à volta dele. Um dos mais disseminados, pelo menos outrora, dizia que a torre é um vulcão de água, com fortes caudais a descer pelas suas entranhas. Nh'Ômbrose, aquele homem misterioso da ilha, visto por muitos como uma espécie de Messias, é que sabia todos os pormenores dos ventres de Topo De Miranda. Contava tudo com muita minúcia.

Lendas à parte… ali enfiado no meio da Ribeira da Torre, Topo de Miranda faz lembrar a misteriosa Pirâmide de Quéops. Com sua imponência, pode ser visto de qualquer ponto do vale da Ribeira da Torre. E a cada ângulo de visão, ganha uma forma diferente, dando a ideia de um mostro que passa a vida em metamorfoses.

 

Oiça, em baixo, a crônica de Benvindo Neves



Programação

Ainda esta Semana

Últimos Vídeos

Últimos Áudios

Artigos Relacionados